“Queremos que estas crianças cresçam e dêem origem a um adulto autêntico”

Descobriu a paixão pela educação desde cedo e aos 18 anos começou a trabalhar com crianças. Depois de terminar a licenciatura, viajou até à Tailândia com o namorado e juntos criaram uma escola inspirada na pedagogia Walford. Hoje, Ana Maria Soromenho é educadora na Tom da Terra, a sua segunda casa. Uma escola que valoriza a brincadeira livre, o contato com a natureza e defende que cada criança deve ser ouvida, respeitada e vista como um ser inteiro e individual. Defensora de uma visão holística da educação, Ana Maria acredita que a escola não deve ser vista como uma fábrica, que é preciso criar uma relação de confiança e afetividade entre educador e co-aprendente para que as crianças se tornem adultos conscientes e possam encontrar o seu lugar na sociedade, sem frustrações.

Como nasceu a paixão da Ana Maria pela educação?
A paixão pela Educação surgiu cedo. Na minha infância, já floresciam em mim gestos de cuidadora, contudo foi aos 18 anos que comecei a trabalhar com crianças. Sinto até hoje que é o meu verdadeiro elemento.

Como evoluiu o seu percurso na área da educação? Que pessoas marcaram o seu percurso e contribuíram para a educadora que a Ana Maria é atualmente?
O meu percurso na Educação foi bastante desafiante, porque sempre me prontifiquei a sair da minha zona de conforto. Tive experiências maravilhosas, outras menos harmoniosas, mas sinto que mesmo as menos harmoniosas foram uma forma de me esclarecer como pessoa e profissional de educação. Sempre me identifiquei com abordagens mais holísticas, ou seja, em que o ser humano, neste caso, a criança fosse observada/contemplada com todas as suas características e potencialidades.

Considera a pedagogia essencial para o desenvolvimento das crianças? Que pedagogias utiliza na sua metodologia de ensino?
Sendo que entendemos por pedagogia a “Arte de Ensinar” e que a aprendizagem está em tudo o que nos move e que nos envolve, sim, considero que a pedagogia é essencial para o desenvolvimento da criança. No entanto, realço novamente que, no meu ponto de vista, a aprendizagem está em qualquer lugar e circunstância. As minhas inspirações pedagógicas são precisamente abordagens que respeitam isso mesmo, que consideram que a aprendizagem surge numa troca a pares ou entre mais pessoas, numa caminhada, numa simples contemplação da natureza. Ou seja, uma pedagogia que seja respeitadora do verdadeiro ritmo e vontade de aprender da criança, onde a relação afetiva entre os adultos e crianças seja imprescindível e essencial ao conhecimento. Identifico-me com a Pedagogia de Projeto, ideais do professor José Pacheco, alguns pontos da pedagogia Waldorf, Escola da Floresta, abordagens ligadas ao Mindfulness.

A Ana Maria construiu uma escola com o seu namorado na Tailândia. Como se desenvolveu a implementação desse projeto e quais os benefícios para a comunidade tailandesa e para o seu desenvolvimento pessoal e profissional?
Foi uma aventura muito enriquecedora termos saído da nossa zona de conforto para o outro lado do mundo. Este projeto foi programado e inspirado na pedagogia Waldorf. O nosso espaço era um bungalow num terreno rodeado de coqueiros, macacos, dragões komonos, uma natureza linda! A ilha onde vivemos chama-se Koh Phangan, uma ilha muito procurada por quem consegue trabalhar remotamente. Assim, recebíamos crianças de outros países (Estados Unidos, França, Rússia, Dinamarca, Israel), mas também crianças da Tailândia, que não foram tantas como gostaríamos porque o Ministério da Educação Tailandês é altamente exigente no currículo. Exigem que as crianças tenham de saber ler no jardim de infância e nós somos totalmente contra essa pressão na fase do primeiro setênio, a não ser que seja algo livre e espontâneo. Houve aqui uma troca de conhecimentos culturais, união, celebração de vida e parcerias de projetos que até hoje mantemos.

Como surgiu o convite para integrar a Escola Tom de Terra?
O Tom da Terra é uma escola/família muito especial. Surgiu na minha vida durante a licenciatura quando não obtive resposta de outra escola no concelho para fazer estágio. Uma amiga educadora partilhou comigo o Tom da Terra e disse que era a minha cara, a minha filosofia. É um amor que dura há alguns anos, é a minha segunda casa.

Quais são as diferentes pedagogias abordadas na escola?
Na escola do coração, como carinhosamente lhe chamamos, existem pilares pedagógicos importantes que assentam nas siglas LAR (Liberdade, Autonomia, Responsabilidade ou Liberdade, Amor, Respeito). Durante os diferentes anos vamos abordando estes valores através de várias metodologias inspiradas em Waldorf, Escola da Floresta, Pedagogia de Projeto, mas acima de tudo um grande respeito e entrega do ritmo de cada criança, onde a prioridade é a brincadeira livre (ou seja, há sempre uma parte do dia dedicada ao verdadeiro tempo de brincar).

No âmbito das diferentes pedagogias, quais são as atividades realizadas? Qual é a recetividade dos alunos a essas atividades?
A escola dá liberdade às educadoras de cada sala para dinamizarem as atividades conforme vão sentindo o grupo, a época do ano e /ou o tema do projeto anual. Contudo, temos uma atividade de currículo da escola que é o Yoga Babys e Yoga Kids (dado por mim). Depois, temos as atividades extracurriculares como a capoeira, dança criativa, ballet, Jiu-jitsu. Em cada sala procuramos que exista um equilíbrio entre as atividades dinamizadas por nós, educadoras, e a necessidade da criança brincar.

Quais são os objetivos de cada uma das atividades realizadas na Escola Tom de Terra?
Não há um objetivo. A ideia é celebrar tudo através das atividades, por exemplo, artísticas. Às vezes celebramos com uma dança, com uma meditação, com um momento de roda da manhã. Essencialmente, as atividades, sejam curriculares ou extra curriculares, são propostas de momentos que fomentem a criatividade, o autoconhecimento, o ritmo de cada criança e dar a oportunidade de serem verdadeiramente quem são. São propostas que permitem o desenvolvimento holístico (global e inteiro) de cada criança.

De que forma os pais são incluídos nas atividades educativas?
Na escola Tom da Terra um dos objetivos é criar uma continuidade do LAR (sendo este conceito também CASA), logo procuramos atender às famílias neste sentido. Criarmos uma grande família onde existem partilhas, relações emocionais, momentos em que estamos todos juntos. Durante o ano, recebemos propostas de famílias que se prontificam a enriquecer a formação dos funcionários, outras que contribuem com os seus conhecimentos através de workshops, palestras, entre outros.

Que elementos do desenvolvimento são valorizados na Escola Tom de Terra?
Todos os elementos são valorizados, escutados e respeitados em cada criança. Todos têm o seu ritmo, e uma criança com a mesma faixa etária que outra pode estar mais desenvolvida em termos cognitivos e outra em termos motores, logo, sentimos que cada uma delas é especial e inigualável.

Como descreve o funcionamento do 1º ciclo na Escola Tom de Terra? E o ensino pré-escolar?
A escola Tom da Terra tem uma parceria com o projeto Tom da Terra e AR, projeto esse dinamizado por mim e pelo meu companheiro, onde recebemos/apoiamos famílias cujos educandos estão em vertente de ensino doméstico. Desta forma, funcionamos todos em parceria para que este grupo de crianças possa ter a experiência do processo de aprendizagem/aquisição de leitura e escrita (entre outras competências) com os pais, connosco (enquanto tutores) e com a relação social dentro da escola.

O contacto com a natureza alberga um conjunto de benefícios para a nossa vida. Que impacto tem o contacto com a natureza no desenvolvimento das crianças?
Na escola do coração temos como prioridade o contato com o ar livre, nomeadamente a brincadeira ao ar livre, as idas à floresta e ao parque próximo da escola.
Podemos realçar alguns benefícios como o contato direto com a natureza, as árvores, as plantas, o respeito pela Natureza (cuidar, não sujar, apanhar lixo deixado por alguém, respeitar as necessidades destes seres vivos que abraçam as nossas crianças). As propostas de brincadeiras que surgem entre eles são inspiradas em materiais de origem natural, logo a criatividade torna-se ainda mais mágica nesses momentos. O desenvolvimento motor também é notado, pois há uma enorme vontade de caminhar, correr, trepar, baloiçar. São movimentos importantes no desenvolvimento saudável da criança. Estes são alguns dos benefícios, entre tantos outros.

Quais são as mais valias das comunidades educativas diferenciadas para as crianças?
Na minha visão, uma criança que esteja nesta vertente educativa, por escolha ou necessidade dos pais, tem oportunidade desde cedo de se autoconstruir de uma forma diferente, mais presente no seu Ser, mais consciente das suas emoções, escolhas, gostos e prioridades. Será sempre uma criança que irá contatar com o respeito pelo seu ritmo, será escutada e não julgada. Terá também oportunidade de contatar com um processo de ensino/aprendizagem que vai ao encontro do que é motivante para ela.

Que diferenças encontra entre as comunidades educativas diferenciadas e as metodologias tradicionais de ensino?
Tantas, mas tantas diferenças! As principais são o currículo extenso e desmotivante, outra diferença é o método expositivo, pouco dinâmico e atrativo para uma criança permanecer horas sentado a escutar. Pouca relação afetiva entre professor/aluno. As disciplinas mais valorizadas são matemática e português, quando todas as áreas deviam ter igualmente valor. Uma criança que tenha uma predisposição para as Artes não tem que ser propriamente um bom aluno a Matemática. A individualidade de cada criança deve ser respeitada. São metodologias altamente ultrapassadas. Formatos de sala de aula que colocam o professor no centro da ação da aprendizagem e não a criança como criador (também) do seu processo de aquisição de conhecimento. Quadros de mérito, para quê? Para quê colocar uma criança a sentir que não é boa aluna, só porque não tem tanto interesse e predisposição para português e matemática? Entre outras diferenças.

Que ensinamentos os alunos podem adquirir com as comunidades educativas diferenciadas que não teriam nas metodologias de ensino tradicionais?
Essencialmente, a oportunidade de serem eles próprios, de se conhecerem e se respeitarem, tendo também oportunidade para serem escutados. Desta forma, as competências/aprendizagens vão fluindo de forma natural.

Que medidas poderiam ser tomadas com vista a implementar de forma mais sustentada as comunidades educativas diferenciadas no modelo de ensino tradicional?
Estamos a fazer tentativas de mudança, mas no ensino tradicional não é um desafio fácil de alcançar. É urgente que nós, educadores, professores, tutores, famílias, nos desconstruamos em relação a crenças, abordagens, metodologias que não são o futuro, e que estão totalmente ultrapassadas. Não estamos mais na altura da revolução industrial, não temos que lidar com a Educação como uma fábrica, queremos dar oportunidade a que estas crianças cresçam e dêem origem a um adulto autêntico, genuíno, fiel aos seus gostos, ideais, evitando assim as frustrações de não se conhecer e de não se encontrar na sociedade em que vivemos.

Na sua opinião, qual considera que deve ser o papel do professor/educador no desenvolvimento das crianças? Que elementos deve privilegiar na sua metodologia de ensino?
O papel do Educador/tutor deve ser principalmente o de ouvinte e observador. Na minha visão, é importante dar oportunidade e voz às crianças, oportunidade de que sejam ouvidas e respeitadas. Mas acima de tudo, criar uma relação afetiva com a criança de forma a que esta confie no seu tutor para que se sinta segura para arriscar/experimentar/evoluir/crescer nas suas aprendizagens.

Patrícia Neves